Crônica: O Garoto Da Passarela

Crônica - O GAROTO DA PASSARELA.jpg

  Aquele parecia só mais um dia normal. Sai do trabalho, virei a esquerda e cheguei no ponto onde tomo o ônibus. Em menos de 10 minutos eu já estava sentada. Como o caminho até a faculdade é longo, peguei meu livro e abri na página que eu deixara pela manhã. 189. Todos me perguntam como termino um livro tão rápido. Desde pequena sempre adorei história. Então, devorar livros é uma das coisas mais fáceis do mundo.

  Cerca de 30 minutos depois, cheguei no ponto final. O ônibus desembarca dentro de um terminal, e minha faculdade fica a alguns metros de distância. Como de costume, guardei o livro, desembarquei e fui em direção a saída. Havia algo estranho naquela noite. Já eram mais 18 horas e as luzes da rua estavam apagadas, deixando ela num breu completo. Também não havia movimento. Por ser a saída do terminal, e dar de cara com a avenida principal do centro da cidade, ela costuvama ser a mais movimentada de todas. Mas naquela noite, não havia ninguém.

  Ninguém além de mim. Achei estranho, e por algum motivo bobo aquela rua escura, deserta me apavorou. Não dou do tipo que se apavora com falta de luz e lugares vazioa, essa sensação me deixou completamente desconfortável. Caminhei apressadamente os dois quarteirões que levavam a passarela. Senti um pequeno ataque de pânico se aproximando. Parei na ponta da primeira escada, segurei o corrimão, respirei fundo e comecei a subir. Era só atravessar a passarela e eu estaria na porta da faculdade. Menos de 1 quilômetro e eu estaria salva.

  Antes mesmo de chegar ao topo da passarela, avistei um rapaz. Jovem. Parado no meio da passarela. Apoiado na beira, observando a rua que passava em baixo. O alívio de ver alguém logo sumiu. Assim que pisei no topo, dando adeus as escadas, ele se virou. Seu rosto era pálido como a lua com veias escuras marcando sua pele. Seus olhos eram vermelhos, mas não como nos filmes, onde usam lentes. Não havia pupila, seu globo ocular era um buraco vermelho intenso vivo como sangue humano. Paralisei.

  Mesmo sem expressão ele me lançou um olhar medonho. Cada centímetro do meu corpo sentiu a injeção de mil agulhas perfurando cada poro. Ele sorriu sem mover os lábios. E antes que eu voltasse para trás e tropeçasse nos degraus de volta para a rua, ele pulou. Em menos de um milésimo de segundo ele se virou e pulou. Vi sua jaqueta preta nadando no ar e suas mãos se fecharem no ar. E ele se fora.

  Como algum tipo de instinto insano, corri para a beira. Alguns passos e eu estava ali, no mesmo lugar onde ele estava. Me debrucei esperando ver seu corpo espatifado no chão. E ali estava ele. Parada perfeitamente imóvel olhando para cima. Para mim. A rua voltara a ter luz. Os carros e pessoas voltaram a circular. Mas parecia que ninguém estava se importando com aquele homem branco como gele de olhos sangrentos parado entre os carros em movimento me olhando.

  Olhei para trás e me deparei com um grande número de pedestres me olhando. Outros, apenas atravessando. Quando voltei meu olhar para baixo, ele não estava mais lá. Um senhor se aproximou de mim. Tocou meu braço, e perguntou se tudo estava bem. Balancei a cabeça positivamente e comecei a seguir meu caminho. Desisti da aula e fui para casa. Aquela foi a primeira vez que eu o vi. Mas com certeza não foi a última.

Anúncios

Me conte o que achou...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s